ET de Varginha
EXECUTIVE SUMMARY
[ EVIDÊNCIAS VISUAIS ANEXADAS ]
DECLASSIFIED REPORT
Em Janeiro de 1996, a cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais, saiu do circuito regional do café e entrou, de forma abrupta, no imaginário global. O que começou como um relato local, três jovens a afirmar que viram uma criatura “agachada junto a um muro” num terreno baldio do bairro Jardim Andere, transformou-se em poucas horas num fenómeno nacional. O caso ganhou camadas: boatos sobre luzes no céu, “comboios” militares, bombeiros em operações atípicas, hospitais envolvidos, e a tese de que um ser não humano teria sido capturado e removido sob sigilo.
O ponto de ignição do episódio está ligado a um lugar muito concreto, e, ao mesmo tempo, difícil de fixar com precisão documental. A imprensa e a memória popular referem o terreno baldio no Jardim Andere; décadas depois, esse mesmo local é associado à Rua Doutor Benevenuto Braz Vieira, no então referido “Bairro Vila Andere”, onde existiria o terreno do alegado avistamento. A própria reportagem do Estado de Minas descreve o espaço como cercado e, naquele momento, sem visita pública regular, apesar de já integrado a planos municipais para turismo temático.
A importância investigativa do caso não reside apenas na narrativa ufológica, mas no rasto institucional que ela provocou. Em 1997, foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) ligado à Escola de Sargentos das Armas (EsSA), em Três Corações, para apurar rumores e acusações de participação de militares e viaturas do Exército nos “factos” divulgados em livro e na imprensa. Esse processo, arquivado no Superior Tribunal Militar, existe como objecto documental formal: dois volumes, 357 folhas, produzidos entre Fevereiro e Junho de 1997, descritos e disponibilizados para consulta pública no repositório do STM.
A posição institucional, hoje facilmente verificável, é inequívoca. A síntese publicada pelo próprio Superior Tribunal Militar afirma que o inquérito não encontrou indícios de operação militar para captura ou transporte de qualquer “criatura”, e que o episódio se consolidou a partir de engano, boatos e interpretações precipitadas num dia de tempestade forte (com registo de granizo). A hipótese central da explicação oficial é a de que as jovens poderiam ter confundido a figura vista com um morador conhecido como “Mudinho”, frequentemente observado em postura agachada, molhado e sujo devido à chuva.
O que mantém Varginha vivo, trinta anos depois, é precisamente a fricção entre duas coisas. De um lado, um arquivo estatal que tenta encerrar o assunto com rotina, meteorologia e erro humano. Do outro, um ecossistema de testemunhos tardios, memórias recontadas e indústria cultural que reabre o caso em ciclos. A reportagem do El País sobre o 30.º aniversário descreve esta dinâmica: a divulgação do inquérito (dois volumes, cerca de 600 páginas) como tentativa de neutralizar a narrativa, enquanto novos depoimentos em produções audiovisuais voltam a alimentar a lenda, incluindo alegações de “passagem por hospital” e transferências entre Varginha e Três Corações.
Há, ainda, um ponto sensível recorrente: a morte do policial Marco Eli Chereze, em Fevereiro de 1996, frequentemente tratada por ufólogos como “prova biológica” de contacto com algo incomum. O problema é que o que se consegue sustentar com documentação jornalística recente é mais prosaico: laudos oficiais atribuindo a morte a infecção bacteriana grave e septicemia, e não a um agente desconhecido. O Correio resume esta tensão de forma explícita, distinguindo causa oficial e especulações.
A controvérsia, portanto, não é apenas “se houve ET”. É também sobre como um boato se transforma em facto social, como instituições reagem a ataques reputacionais, e como a disponibilidade (ou ausência) de documentos molda décadas de debate. Um exemplo útil disso está num requerimento oficial na Câmara dos Deputados: o documento regista perguntas e suspeitas sobre procedimentos, cita a existência do IPM, discute incongruências percebidas por ufólogos e reclama transparência, mostrando que o caso foi, de facto, tratado como assunto institucional, mesmo quando a conclusão oficial era de desmistificação.
A situação actual confirma que Varginha já não vive apenas de “verdade” ou “mentira”; vive de memória pública. Em 2025, a Prefeitura anunciou a aquisição do terreno associado ao avistamento, com o objectivo de o integrar num roteiro ufológico e transformá-lo em ponto turístico, preservando o “cenário” e criando estrutura de visitação. Ou seja, independentemente da explicação oficial, o município passou a institucionalizar o lugar como património narrativo.



